Por Cristiano Stefenoni
A indicação de Jorge Messias, 45 anos, ao Supremo Tribunal Federal (STF) tem gerado um intenso debate entre a liderança evangélica. Se por um lado o atual Advogado-Geral da União, que é diácono da Igreja Batista Cristã de Brasília, recebe apoio de nomes fortes como o apóstolo Estevam Hernandes (presidente da Renascer em Cristo e da Marcha para Jesus), o bispo Samuel Ferreira (um dos mais importantes nomes da Assembleia de Deus) e o bispo Robson Rodovalho (presidente da Sara Nossa Terra), por outro lado, há um grupo que critica a proximidade de Messias com Lula.
Entre esses críticos está o líder do PL (partido do ex-presidente Jair Bolsonaro), o pastor e deputado Sóstenes Cavalcante, que preferia a indicação do ex-presidente do senado Rodrigo Pacheco. “Messias é petista”, criticou Sóstenes em várias entrevistas dadas. A fúria de parte da oposição se deu, principalmente, após reunião no gabinete presidencial em outubro deste ano e que reuniu lideranças evangélicas, com uma foto emblemática de Lula recebendo uma Bíblia e oração.
Nesse embate, há os que acham se tratar de um blefe do atual gestor do executivo para atrair o eleitorado evangélico e existem os que preferem acreditar que realmente há uma intenção do governo em se aproximar dos crentes, em especial das pautas defendidas por eles – como é o caso da proibição do uso da linguagem neutra, sancionada por Lula na última segunda-feira (17) e apoiada pelos cristãos conservadores.
Aliás, um dia após ser indicado Lula à vaga do Supremo, Jorge Messias foi recebido pelo ministro André Mendonça na Convenção Nacional das Assembleias de Deus Ministério de Madureira (Conamad), em São Paulo, nesta sexta-feira (21), onde foi abraçado ao subir no palco e receber o apoio da liderança presente.
Mas afinal, o que pensam alguns pastores sobre a indicação de Messias ao STF? Para o pastor Jorge Linhares, líder da Igreja Batista Getsêmani em Belo Horizonte (MG), o apoio recebido por outro ministro do STF, que também é evangélico, pode ser um indicativo que uma boa escolha. “Não sei muito sobre o Jorge Messias, mas só dele ter o apoio do ministro e pastor André Mendonça, acredito que colocará Deus em primeiro lugar”, opina.
Já o pastor Amauri Oliveira, presidente da Agência Presbiteriana de Missões Transculturais (APMT), acredita que essa indicação é um equívoco, não necessariamente pela pessoa de Messias, mas sim pela forma como é feita a indicação.
“O STF deveria ser um órgão técnico e tem virado, nos últimos anos, um órgão político. Não é algo contra o Messias em si, mas contra a maneira como tem sido decidido quem vai à Suprema Corte do Brasil. Na minha opinião, a indicação não deveria ser presidencial, mas ter outro critério. Da forma atual, é altamente comprometedor para segurança jurídica do país”, acredita Oliveira.
Para o articulista de Comunhão, pastor José Ernesto Conti, líder da Igreja Presbiteriana Água Viva em Vitória (ES), vivemos dias tão politicamente conturbados que a possibilidade de ficarmos cada dia mais frustrados com nossas autoridades deixou de ser uma possibilidade para se tornar uma realidade.
“É óbvio que, como cidadãos, temos todo o direito de optarmos politicamente por qualquer corrente ideológica, porém um cristão, com um certo nível de conhecimento intelectual deve, no mínimo aceitar o conselho de Paulo quando diz que devemos ser irrepreensíveis, filhos de Deus inculpáveis no meio de uma geração pervertida e corrupta, resplandecendo como luzeiros no mundo e não praticar e apoiar princípios abertamente contrários a maior lei, que é a Lei de Deus”, ressaltou o pastor que emendou:
“Tenho dificuldades de apoiar restrita ou irrestritamente qualquer pessoa que se ajusta conforme as circunstâncias, é flexível com seus valores e cede em pontos fundamentais que norteiam nossas vidas. Rogo a Deus que ilumine de alguma maneira esses homens!”.
Pelas redes sociais, algumas lideranças religiosas também se manifestaram. Apoiador declarado de Bolsonaro e crítico ferrenho de Lula, o pastor Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, disse em resposta a vários sites de notícias o mesmo discurso: não tem nada contra a pessoa de Jorge Messias, mas sim a questão ideológica que pode ser defendida por ele, já que é muito próximo do atual presidente. Sua crítica a indicação de Flávio Dino, na época, teria se dado exatamente por divergir da posição marxista dele.
Quem é Jorge Messias?
Dados básicos
Nome: Jorge Rodrigo Araújo Messias
Idade: 45 anos
Naturalidade: Recife (PE)
Estado civil: casado e pai de dois filhos
Religião: Batista
Indicação ao STF: indicado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 20 de novembro de 2025 para a vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso
Formação acadêmica
Graduação em Direito pela Universidade Federal de Pernambuco (Faculdade de Direito do Recife — UFPE)
Mestrado e doutorado em Desenvolvimento, Sociedade e Cooperação Internacional pela Universidade de Brasília (UnB); tese/doutorado concluído em 2023
Carreira pública / trajetória profissional
Carreira na Advocacia-Geral da União (AGU): é membro de carreira (procurador da Fazenda Nacional desde 2007) e, desde 1º de janeiro de 2023, ocupava o cargo de Advogado-Geral da União (AGU) no governo Lula.
Cargos anteriores: atuou como procurador do Banco Central e do BNDES; consultor jurídico no Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações; secretário de regulação e supervisão da Educação Superior no MEC; subchefe para assuntos jurídicos/assuntos governamentais na Casa Civil (governo Dilma) e assessor parlamentar. Já foi também mencionado como assistente parlamentar do senador Jaques Wagner.
Reconhecimento/visibilidade: ganhou notoriedade pública em 2016 por menção em gravação entre Dilma e Lula (o episódio que gerou o apelido “Bessias” na mídia)
Perfil jurídico e posições conhecidas
Perfil técnico, com interpretações críticas ao papel do Judiciário em determinados momentos: em sua tese/doutorado Messias teria criticado episódios em que o STF teria agido “partidarizadamente” em processos como Mensalão e Lava-Jato — ponto que tem sido destacado na cobertura jornalística e que gerou debates sobre sua visão sobre controles judiciais.
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