A relação entre gerações sempre esteve presente dentro da Igreja, mas a revolução digital aprofundou ainda mais as diferenças, criando desafios na transmissão da fé. Enquanto os mais velhos cresceram em um ambiente em que a religiosidade estava mais ligada à tradição e à disciplina comunitária, os mais jovens buscam uma fé que dialogue com seu cotidiano e se conecte às questões do mundo atual.
Esse choque de perspectivas gera tensões dentro das famílias, das igrejas e da própria estrutura religiosa, exigindo novas formas de discipulado e acolhimento. Segundo o pastor da Igreja Defesa da Fé, em Nova Parnamirin (RN), Tassos Lycurgo, o papel da família é fundamental na preservação dos valores morais e cristãos.
“Essa situação do mundo digital cria, de fato, tensões no que diz respeito aos valores, à comunicação e às expectativas das gerações. Isso origina, sim, algum problema. Historicamente, nós sabemos, e é a verdade, que a família é a célula básica da sociedade. A família é mesmo a instituição mais relevante na possibilidade de passar para a próxima geração os valores genuínos, cristãos, verdadeiros”, destaca Lycurgo.
Para o teólogo e Doutor em Sociologia Política Nelson Lellis, o choque de gerações no contexto religioso ocorre por conta da própria estrutura da religião institucionalizada, que possui regras mais rígidas e claras. Nesse caso, quando o jovem hoje se depara com as normas estabelecidas pela estrutura e reproduzidas dentro de casa por seus pais e com os dogmas e regramentos eclesiásticos, há três caminhos possíveis, segundo Lellis.
“O primeiro passa pelo emudecimento do fiel. Ele entende que não é possível alterar os códigos internos e resolve adaptar-se (mais uma vez) a eles. O segundo, o diálogo e o debate que, consequentemente, podem gerar pequenas aberturas quando não comprometem a essência de tal instituição. Esse tipo de embate também pode causar a cisão trazendo, com isso, novos movimentos – e esse é o terceiro caminho”, frisa o teólogo.
A psicóloga Marisa Lobo afirma que os conflitos geracionais causados pelas diferentes formas de as gerações mais velhas e as mais jovens se relacionarem com a fé e a igreja podem impactar a saúde mental dos fiéis e das lideranças. Isso porque essas tensões tendem a gerar sentimentos de ansiedade e desilusão nos mais jovens, que podem se sentir excluídos, e de estresse nos mais velhos, na tentativa de mediar os conflitos.
“As tensões podem resultar em frustração tanto para os jovens, que buscam mudanças, quanto para os mais velhos, que desejam preservar tradições. Essa frustração pode se transformar em desmotivação para participar ou liderar atividades da igreja. Esses conflitos, quando não resolvidos, podem levar a divisões dentro da congregação, causando uma sensação de desunião que pode ser prejudicial ao bem-estar emocional de todos os membros. Esses conflitos podem gerar inseguranças, fazendo com que os fiéis questionem seu lugar e pertencimento na comunidade”, ressalta Lobo.
Na visão do pastor Diogo Dantas, as diferenças geracionais são naturais, pois as gerações mais antigas foram educadas em um contexto em que a fé estava mais ligada à obediência e à disciplina comunitária, o que torna a fé dos mais velhos mais resiliente em tempos difíceis. Por outro lado, as gerações mais novas valorizam uma fé mais experiencial e relacional, com perguntas mais abertas e menos baseadas na tradição, buscando uma fé que faça sentido no seu cotidiano e dialogue com os desafios atuais.
“Nenhuma dessas abordagens é melhor ou pior. São apenas diferentes e precisam ser integradas na caminhada cristã. A sabedoria das gerações mais velhas e a força dos jovens são dons que podem e devem caminhar juntos. Como está escrito em Provérbios 20:29, ‘O esplendor dos jovens está na sua força, e a glória dos idosos, nos seus cabelos brancos’”, destaca Dantas.
Nesse contexto, o eticista Lourenço Stelio Rega acredita que as diferentes perspectivas entre as gerações são uma oportunidade para o diálogo, momento em que pais e líderes devem ter uma escuta atenta e indicar, por meio de embasamento bíblico, como os mais jovens podem lidar com as questões contemporâneas.
O teólogo destaca o papel da família, que será preponderante, sobretudo na formação do perfil da geração Beta. “Os pais precisarão lidar com a digitalidade, sem dúvida, mas muito mais com o cenário despido de referenciais éticos em que esta geração está nascendo, tornando seu lar um ambiente de aprendizagem ética, afetiva, da valorização do outro”, afirma Rega.
Já a senadora Damares Alves aponta que Igreja e família precisam atuar juntas para fortalecer os princípios cristãos, a partir do combate aos discursos que tentam distorcer os valores morais e religiosos.
“É necessário se posicionar e combater os argumentos falaciosos que têm sido repetidamente disseminados em todos os lugares e por todos os meios. A Igreja precisa falar de assuntos como liberdade, democracia, direito à vida e aborto, drogas, direitos humanos, violência contra mulhere, crianças e adolescentes; ou seja, todos os assuntos do dia a dia que impactam a vida das pessoas”, enfatiza.
O desafio de discipular uma geração hiperconectada
A democratização da informação proporcionada pelo universo digital possui muitos aspectos positivos, mas, na visão do pastor Tassos Lycurgo, também se apresenta como um desafio para a igreja.
A era digital, para o reverendo, modificou de forma radical o acesso às informações no ambiente religioso, pois as doutrinas e o ensino das Escrituras eram transmitidos sobretudo por líderes religiosos e comunidades locais, o que não é mais uma realidade, visto que há uma polifonia de vozes no ambiente digital.
“A democratização do acesso à informação e ao conhecimento é essencialmente positiva, mas também gera problemas e muitos desafios. Ela exige que o líder religioso tenha o discernimento para apontar em quais argumentos ou quais dessas vozes podem trazer certa superficialidade espiritual ou mesmo, na pior das hipóteses, heresias”, pontua Lycurgo.
Nesse contexto de hiperconexão, a professora Lidice Meyer observa que há um maior risco de proliferação de doutrinas mal fundamentadas que tendem a ser transmitidas de maneira irresponsável pelos chamados “influencers evangélicos”. Dessa maneira, a antropóloga avalia que há atualmente um cenário de confusão espiritual, que é decorrente da ausência de uma base doutrinária bem estabelecida em conjunto com uma busca sincera por conteúdos que aprofundem a fé.
“Mesmo os posts de Instagram bem elaborados substituem a leitura dos textos mais explicativos, pois são de leitura rápida e lúdica. Funcionam como uma ‘teologia em conta-gotas’ que vai sendo absorvida pelo fiel, sem trazer a necessária reflexão e gerar conhecimento teológico. Infelizmente, muitas das postagens dos influencers evangélicos buscam mais as curtidas ou a geração de seguidores do que a propagação do Evangelho”, ressalta Meyer.
Diante de um mundo hiperconectado, o pastor Aaron Ignácio analisa que a igreja deve usar a tecnologia para evangelizar, mas sem substituir a comunhão presencial. Nesse sentido, o discipulador deve utilizar a tecnologia como uma ferramenta para manter o contato constante com o discípulo, enfatizando a importância de estar junto da comunidade de fé.
“Se a gente consegue fazer reuniões on-line de trabalho, por exemplo, é possível fazer também uma ou outra de discipulado para a gente não perder o cronograma. Ao mesmo tempo, é preciso tomar muito cuidado para que esse distanciamento não se torne vicioso e as pessoas se acostumem a estar distantes umas das outras. É importante se apropriar dessa realidade, mas utilizá-la como um acessório, e não como uma prática”, ressalta o pastor.
O pastor Diogo Dantas concorda que a comunicação deve ser adaptada, priorizando o discipulado presencial, e acrescenta que a chave para dialogar com as novas gerações é ter uma escuta ativa e disposição para responder às perguntas desses jovens com profundidade e amor.
“Essas gerações não aceitam respostas superficiais ou dogmáticas sem reflexão. A Igreja precisa se tornar um espaço seguro para questionamentos, mostrando que a fé cristã não teme o pensamento crítico; pelo contrário, cresce com ele. Jesus mesmo não rejeitava perguntas, mas as usava para ensinar e transformar corações. O jovem rico, Nicodemos e a mulher samaritana são exemplos bíblicos de como Ele respondia de forma sábia e desafiadora às questões que lhe eram trazidas”.
O futuro da Igreja: inovar sem perder a essência das Escrituras
Ao contrário do que muitos pensam, manter a tradição não significa rejeitar a inovação. É o que defende o pastor Tassos Lycurgo, que destaca a importância de a igreja buscar o equilíbrio na preservação da essência do Evangelho, sendo fiel à Palavra de Deus, que transcende o tempo, a cultura e os elementos geracionais. Para Lycurgo, trata-se de pregar o verdadeiro Evangelho, que é imutável.
“A igreja deve seguir o exemplo do apóstolo Paulo. Na 1ª Epístola aos Coríntios 9:22, o apóstolo demonstra um exemplo disso. Ele diz ‘fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns’. Isso significa que é possível adaptar o método, mas ciente de que a verdade do Evangelho é única”.
Geralmente, a preocupação da igreja está voltada para os jovens, no entanto, o pastor Aaron Ignácio chama a atenção para a importância de se estabelecer ações e criar espaços para diferentes faixas-etárias. Dessa maneira, o reverendo acredita que é necessário manter o equilíbrio, com programações específicas para o público jovem e trabalhos direcionados aos adultos e aos idosos.
“Na igreja em que sou pastor, temos um trabalho específico com os irmãos da terceira idade, que fazem visitas, cultos, chás e lanches da tarde. Ao mesmo tempo, há os jovens que se reúnem às sextas-feiras à noite para fazer um culto. Então, é preciso ter essa mescla na tentativa de permanecer com a experiência do mais velho e a força do mais novo”, assinala Ignácio.
O teólogo Lourenço Stelio Rega ressalta que, ao realizar suas ações, independentemente do público-alvo, o principal foco da igreja deve estar no resgate do ensino completo da fé cristã para que a Igreja continue sendo um farol de valores sólidos. “Precisamos recuperar o Evangelho integral e pedir ajuda às novas gerações para isso, pois elas se sentirão atraídas em ajudar. E também buscar compreender a visão cristã de mundo para conseguirmos agir como portadores de uma contracultura diante deste mundo caótico”, finaliza o eticista.
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